20 de set. de 2010
"ONDAS - Leia abaixo o texto na íntegra da Patrícia, mãe do Gabriel do 1º ano"
AYVY RAPYTA
CONSTRUINDO PONTES
Através das BELAS PALAVRAS -Ayvu Rapyta- cânticos sagrados que evocam desde os tempos antigos a cosmologia do povo indígena Guarani, cuja cultura milenar constitui uma das mais fortes ramificações da raiz de nossa identidade brasileira, vimos agradecer o caloroso abraço e participação da comunidade da escola Manacá na campanha “Inverno mais quentinho na aldeia Tenondé Porã” realizada em junho.
A cultura guarani tem uma participação decisiva na formação do Brasil. São contribuições que permeiam o imaginário, a língua, a culinária, a música, a geografia e muitos dos costumes dos brasileiros. De um modo geral, os povos indígenas são parte do Brasil mesmo que a maior parte de nossa sociedade ainda não tenha consciência e acesso a este legado cultural.
Há oito anos mantenho relações de interlocução, de trabalho, de aprendizado, de troca, de encantamento e, sobretudo, de amizade com o povo Guarani Mbya. Aprendi com eles a escuta e o olhar além das impressões aparentes.
Aprendi com eles o que pode haver em comum nas diferenças.
Aprendi com eles novos caminhos para a convivência e comunicação com o outro culturalmente diferente.
Aprendi com eles que as forças do coletivo, dos rituais sagrados e do respeito incondicional a todos os seres e à natureza geram uma fonte inesgotável de vida. Apesar de tantos pesares...
Esta trajetória de oito anos tem me transformado como ser humano e despertado um comprometimento com esse povo, uma parceria que foi ritualizada quando ganhei um nome Guarani, JERÁ, que se remete assim como o esforço necessário que a borboleta faz para sair do casulo, ao “desabrochar, desatar, desamarrar, desdobrar”.
Neste processo de desdobramento, tenho vivenciado intensamente e buscado compartilhar, desde então, a prática da ALTERIDADE.
Descobri a enorme diversidade étnico-cultural e lingüística dos aproximadamente 200 povos indígenas remanescentes no Brasil que, ao contrário do que aprendi na escola, não estão desaparecendo, mas resistem culturalmente e buscam estabelecer relações mais favoráveis com a sociedade envolvente do que o histórico de dominação já vivenciado.
Da mesma forma, descobri que a idéia de que “só existem índios na Amazônia” não procede. Esta proposição, que aponta para uma invisibilidade dos povos indígenas nas outras regiões do Brasil, sobretudo as mais povoadas, favoreceu, de certa forma, num determinado momento histórico, a sobrevivência no anonimato de alguns grupos étnicos indígenas. É o caso das cinco etnias em situação atual de aldeamento no Estado de São Paulo: Guarani, Kaingang, Krenak, Terena e Tupi. São mais de trinta aldeias, cuja população total está estimada em quatro mil indígenas, localizadas no Vale do Ribeira, Litoral Sul e Norte, Interior Paulista e Capital! Isso sem contar os outros grupos que por diversos motivos migraram para a capital, mas não perderam suas referências étnicas. São aproximadamente doze mil indígenas que, por não estarem em terras indígenas demarcadas, não são considerados no discurso oficial.
E não precisa ir muito longe para encontrá-los.
No Real Parque no bairro do Morumbi encontramos uma comunidade Pankararu, que tem empenhado esforços no sentido de reconhecimento de sua identidade indígena e atendimento por parte do poder público.
Da mesma forma, a aldeia guarani Tenondé Porã está localizada no extremo sul da capital paulista, no bairro da Barragem, a quarenta quilômetros da Manacá.
Apesar da proximidade e da situação resultante dos processos históricos vivenciados, sua população de quase mil habitantes tem o idioma, a cultura e principalmente os rituais indígenas vivos e fluentes.
Claro que, diante do panorama sobrevoado, a idealização do “bom selvagem” que povoa nosso imaginário cai por terra. Nem por isso eles deixam de ser índios no melhor e mais profundo sentido da palavra.
Atualmente, sobretudo os grupos aldeados na capital de São Paulo, vivem o grande paradoxo de sofrerem pressões para adotarem padrões da sociedade nacional, no que se refere ao modo de vida, à educação, saúde, trabalho, moradia etc., ao mesmo tempo em que, para terem seus direitos assegurados de acordo com os novos paradigmas nacionais apontados pela Constituição de 88, devem manter-se étnica e culturalmente diferenciados, vivendo “conforme seus costumes, línguas, crenças e tradições”.
Instaurou-se no Brasil a partir da nova Constituição uma nova abordagem em relação aos povos indígenas no sentido oposto aos descaminhos legitimados até então. Mas ainda reverberam nitidamente na sociedade traços de um pensamento colonialista em que, de certa forma, os indígenas não estão em pé de igualdade com os demais. Neste sentido, nossa responsabilidade enquanto educadores/pais aponta para perspectivas de novos olhares e abordagens em relação aos indígenas, assim como na estruturação de relações diferenciadas em que a equanimidade do ser indígena é um valor.
A vizinhança dos centros urbanos, os apelos dos meios comunicação de massa da sociedade moderna, capitalista e dominante, e a necessidade de articulações políticas em torno de sua permanência e dignidade perante a sociedade nacional têm instaurado dinâmicas interculturais que resultam na estruturação de sujeitos indígenas atuais capazes de usar roupas, celulares, computador, sem perder a fluência na língua materna e as práticas tradicionais, principalmente os ritos na Opy (Casa de Reza). A Opy é o coração, a alma, a cabeça e o corpo do Guarani, onde não se concebe fragmentação.
É o centro de encontro e de interação, profundamente ligado à uma forma de existir que dá sentido e organiza a vida Guarani através de suas BELAS PALAVRAS.
É a realidade acolhida e compartilhada por seus mestres através da cultura
oral, de geração em geração, através da fumaça do cachimbo e das histórias...
É na Opy, que emergem, de modo consagrado, os cantos, as danças, os
rituais, as representações, as narrações míticas...
É onde se ritualiza, o entre, o visível e o invisível.
A Opy é o terreno fértil, onde se mantém viva e atualizada a raiz do povo, onde se configura o contexto de transmissão de saberes tradicionais fundamental para a manutenção da identidade étnica do grupo.
É lá, através de seus rituais, que o povo Guarani alimenta e mantém vivo o
seu NHANDEREKO- modo de ser Guarani. Onde se mantém atualizada a organização interna que garante um coletivo que se remete a princípios comuns.
Ha va ete!(Obrigada)
Patricia Zuppi- mãe do Gabriel (1 Ano)